Uma salsicha comum vivia amargurada com o estranho facto de sofrer de albinismo. Enquanto as suas irmãs exibiam uma tez digna dos efeitos de um Verão soalheiro, ela, por sua vez, era pálida e mirrada como um espargo desidratado. Já tinha tentado de tudo, mas não havia processo de bronzeamento - natural ou artificial - que lhe pudesse valer. Albina nascera, albina haveria de fenecer.
As outras salsichas, embora não se aproveitassem do facto para abusar dela, não conseguiam passar sem, ocasionalmente, fazer alguns comentários jocosos. O que irritava ainda mais a albina, que achava a atitude das irmãs de uma condescendência insuportável.
Se por frustração ou por inveja, não se sabe. O que é certo é que o deslavado enchido acabou por se tornar no manda-chuva da salsicharia. E, durante anos, vem cozinhando acordos e apoios para se manter no poleiro, hipotecando a sua consciência junto da clique carnívora que vive à custa do sangue, do suor e das lágrimas das suas irmãs.
Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
O anúncio
Tudo quanto é profissional da «calhandrice» nacional estava a postos para o anúncio.
A reunião dos carnívoros continuava para lá da hora anunciada e só após o seu termo a comunicação teria lugar. Até as moscas se impacientavam nos cafés, zumbindo, neuróticas, acima das melenas dos clientes. E o raio do anúncio que nunca mais vinha…
Nas cantinas, bares e restaurantes da populaça ou nos esconsos das cozinhas domésticas faziam-se vaticínios e apostas. A velha truta cínica e dura seria refogada em molho de vinho branco… Não, diziam alguns, seria assada ao natural ou frita em azeite virgem. Seria estufada ou cozida, apostavam outros.
Embora com opiniões tão diversas sobre a metodologia a adoptar, muita gente achava possível um «happy end» culinário que desse fim à prosápia de tão incómodo ser.
Engano deles. Quando, finalmente, o anúncio chegou, todas as expectativas caíram por terra. Nem refogada, nem assada, nem frita, nem estufada, nem cozida. A velha truta cínica e dura ia continuar a dar à barbatana no tal riacho de montanha onde era rainha e senhora.
Pois é, esqueciam-se que os carnívoros são obstinados e calculistas e apreciam outras iguarias: preferem ferrar a dentuça no pescoço dos animais de sangue quente.
A reunião dos carnívoros continuava para lá da hora anunciada e só após o seu termo a comunicação teria lugar. Até as moscas se impacientavam nos cafés, zumbindo, neuróticas, acima das melenas dos clientes. E o raio do anúncio que nunca mais vinha…
Nas cantinas, bares e restaurantes da populaça ou nos esconsos das cozinhas domésticas faziam-se vaticínios e apostas. A velha truta cínica e dura seria refogada em molho de vinho branco… Não, diziam alguns, seria assada ao natural ou frita em azeite virgem. Seria estufada ou cozida, apostavam outros.
Embora com opiniões tão diversas sobre a metodologia a adoptar, muita gente achava possível um «happy end» culinário que desse fim à prosápia de tão incómodo ser.
Engano deles. Quando, finalmente, o anúncio chegou, todas as expectativas caíram por terra. Nem refogada, nem assada, nem frita, nem estufada, nem cozida. A velha truta cínica e dura ia continuar a dar à barbatana no tal riacho de montanha onde era rainha e senhora.
Pois é, esqueciam-se que os carnívoros são obstinados e calculistas e apreciam outras iguarias: preferem ferrar a dentuça no pescoço dos animais de sangue quente.
Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
A truta anarquista que chegou a ministra

Qual Nemo, qual Pi? O peixe mais famoso deste jardim à beira mar plantado não dá à barbatana nas águas do oceano, mas num modesto córrego de montanha. É uma velha truta, cínica e dura, que governa uma boa parte dos espécimes piscícolas do dito riacho. Segundo uma versão veiculada por certas más-línguas (de bacalhau), a dita criatura militou, em jovem, nas minguadas hostes que vão mantendo acesa a chama do ideal libertário. No entanto, depois de um longo e tortuoso percurso, em que a sua ascensão académica foi inversamente proporcional à coerência ideológica, a dita truta acabou por se render ao doce fascínio do poder, aceitando um cargo ministerial. Constituiu uma trupe de ajudantes reverentes e acéfalos, entregando o comando intermédio a dois carapaus de corrida manhosos. E assim ficou a velha a mandar nos seus iguais, que passou a tratar com a desfaçatez e sobranceria próprias de quem ascende a tão altos cargos.
Ora, a dita cuja teve uma autêntica epifania quando tropeçou num obscuro manual de culinária dos tempos da «outra senhora». Depois de ler e reler as bolorentas receitas, capazes de encher de colesterol maléfico as artérias de um asceta vegetariano, a agora ministra decidiu do tratamento a dar aos outros peixes seus subordinados para poderem circular no tal riacho de montanha. Primeiro, dividiu-os em dois cardumes diferenciados. Uns seriam peixes-titulares, os outros apenas peixes-peixes. Os primeiros mandariam nos segundos e os segundos obedeceriam aos primeiros. Para além disso, seriam todos, sem excepção, sujeitos a um processo culinário complexo e burocrático em que o principal procedimento raiava a mais perversa crueldade: seriam, entre outras coisas, «grelhados» até à exaustão.
A princípio, as outras trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins nem sabiam que pensar nem que dizer. Examinaram e dissecaram as arrevesadas directivas da truta e seus carapaus de estimação e chegaram à triste conclusão de que esta, ao contrário dos discursos inflamados, não estava absolutamente nada interessada na melhoria da qualidade do seu desempenho natatório. O seu propósito era apenas o de poupar uns tostõezitos no orçamento do governo carnívoro de que fazia parte.
Os visados começaram por esboçar alguns protestos tímidos, que suscitaram um violento contra-ataque da velha truta cínica e dura. Intentou até virar contra estes a restante fauna aquática da região, embora com reduzido sucesso.
Até que, recorrendo ao seu direito à indignação, os condenados à que ficou conhecida como «tortura da grelha» decidiram manifestar-se publicamente.
Cem mil. É verdade. Cem mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins inundaram as artérias do riacho num ruidoso protesto. Mas, por incrível que pareça, a velha não desarmou. Ela, na infalibilidade da sua imensa sabedoria, decidira que seriam «grelhados» e «regrelhados» e não havia retorno da decisão.
Veio o Verão, a migração sazonal, a desova e restantes etapas da proliferação das espécies exóticas e endémicas e a coisa acalmou um pouco. No Outono, no entanto, os sentenciados não baixaram os braços e voltaram a encher as artérias do riacho com os seus protestos. Desta vez, foram cento e vinte mil. É verdade. Cento e vinte mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins.
Mas a velha continua na sua. De prepotência em prepotência, de mentira em mentira, os carapaus de corrida e respectiva mestra divertem-se a testar o que resta da paciência dos outros peixes. Daí que estes não terão outro remédio senão cerrar fileiras e correr com o trio até ao mar. Pode ser que um tubarão esfomeado tropece neles e os almoce. Que lhe façam bom proveito!
Ora, a dita cuja teve uma autêntica epifania quando tropeçou num obscuro manual de culinária dos tempos da «outra senhora». Depois de ler e reler as bolorentas receitas, capazes de encher de colesterol maléfico as artérias de um asceta vegetariano, a agora ministra decidiu do tratamento a dar aos outros peixes seus subordinados para poderem circular no tal riacho de montanha. Primeiro, dividiu-os em dois cardumes diferenciados. Uns seriam peixes-titulares, os outros apenas peixes-peixes. Os primeiros mandariam nos segundos e os segundos obedeceriam aos primeiros. Para além disso, seriam todos, sem excepção, sujeitos a um processo culinário complexo e burocrático em que o principal procedimento raiava a mais perversa crueldade: seriam, entre outras coisas, «grelhados» até à exaustão.
A princípio, as outras trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins nem sabiam que pensar nem que dizer. Examinaram e dissecaram as arrevesadas directivas da truta e seus carapaus de estimação e chegaram à triste conclusão de que esta, ao contrário dos discursos inflamados, não estava absolutamente nada interessada na melhoria da qualidade do seu desempenho natatório. O seu propósito era apenas o de poupar uns tostõezitos no orçamento do governo carnívoro de que fazia parte.
Os visados começaram por esboçar alguns protestos tímidos, que suscitaram um violento contra-ataque da velha truta cínica e dura. Intentou até virar contra estes a restante fauna aquática da região, embora com reduzido sucesso.
Até que, recorrendo ao seu direito à indignação, os condenados à que ficou conhecida como «tortura da grelha» decidiram manifestar-se publicamente.
Cem mil. É verdade. Cem mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins inundaram as artérias do riacho num ruidoso protesto. Mas, por incrível que pareça, a velha não desarmou. Ela, na infalibilidade da sua imensa sabedoria, decidira que seriam «grelhados» e «regrelhados» e não havia retorno da decisão.
Veio o Verão, a migração sazonal, a desova e restantes etapas da proliferação das espécies exóticas e endémicas e a coisa acalmou um pouco. No Outono, no entanto, os sentenciados não baixaram os braços e voltaram a encher as artérias do riacho com os seus protestos. Desta vez, foram cento e vinte mil. É verdade. Cento e vinte mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins.
Mas a velha continua na sua. De prepotência em prepotência, de mentira em mentira, os carapaus de corrida e respectiva mestra divertem-se a testar o que resta da paciência dos outros peixes. Daí que estes não terão outro remédio senão cerrar fileiras e correr com o trio até ao mar. Pode ser que um tubarão esfomeado tropece neles e os almoce. Que lhe façam bom proveito!
Quarta-feira, 12 de Março de 2008
O pepino mentiroso

No quintal das traseiras, havia um pouco de tudo: couves, alfaces, cenouras, nabos, feijões, tomates e outros legumes, incluindo uma batateira que ali nascera por engano. Mas o mais bizarro dos habitantes da horta era um pepineiro muito especial.
Enraizado debaixo de uma laranjeira, foi esticando a haste em direcção a um exuberante e perfumado roseiral, ao lado da casa, onde se situava a torneira de rega e havia mais luz. E, exactamente nessa extremidade, ostentava o único pepino da sua criação.
Com o tempo, o pepino foi engordando o corpo e a prosápia. Num ápice, tratou de dominar toda a horta, à custa das muitas artes e manhas que lhe surgiam não se sabe bem de onde. O seu principal argumento incluía um monumental paradoxo:
- Reparem bem: eu não sou um simples pepino. Reúno o melhor de dois mundos. Por via das raízes, ostento o delicado sabor das laranjas. E, por influência da vizinhança, exalo o perfume distinto das rosas. Se confiarem em mim, prometo que nada vos faltará e levarei a horta à prosperidade.
Os legumes deixaram-se levar, talvez por apatia, talvez porque não tivessem meios de desmentir a falácia. Mas, quando o dono da casa, ocupado com outros afazeres, descurou os cuidados da horta, o pepino aninhou o corpo rechonchudo na vala de rega e usurpou as poucas gotas que pingavam da torneira. Aos restantes, ordenou:
- Todos devem fazer sacrifícios. Se necessário, adubai a terra que vos deu vida, com os vossos corpos moribundos. O futuro da horta está em causa, bla-bla, bla-bla, bla-bla…
A coisa piorou com o tempo. Os legumes mirravam de sede e o descontentamento levou alguns à revolta:
- Um pepino que sabe a laranjas e cheira a rosas? Balelas! O tipo é mas é um ‘ganda’ mentiroso. Ele quer é usurpar os nossos direitos - dizia um.
Acicatada, toda a horta protestava:
- Deixa vir a água até nós. Não podemos aguentar mais sacrifícios.
E as couves, as alfaces, as cenouras, os nabos, os feijões, os tomates e outros legumes, incluindo a batateira que ali nascera por engano, gritavam em coro:
- Mentiroso, mentiroso. Mentiroso. Mentiroso.
Mas o pepino, colocado em posição estratégica, não abria mão dos seus privilégios.
Ora, como não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe, um dia, o dono da casa foi ao quintal, de sachola em punho. Entre outras coisas, tinha na intenção apanhar umas folhas de couve para fazer uma sopa. Mas deu-se conta que estava tudo a morrer de sede. No caminho, topou com o pepino, verde e viçoso, e levou-o. Depois, abriu a torneira e dessedentou a horta.
Com o produto da colheita, fez uma portentosa salada. Que se saiba, não sabia a laranjas, nem cheirava a rosas. Mas soube-lhe muito bem.
Do pepino mentiroso, sobraram apenas as cascas, que os coelhos roeram com grande satisfação.
Segunda-feira, 10 de Março de 2008
A convenção dos orégãos

Foi no maior sigilo que se realizou, no passado fim-de-semana, a convenção anual da Grande Loja do Orégão Dourado. O evento reuniu, num hotel da capital, todos os membros desta conhecida sociedade secreta, a que pertencem as mais destacadas individualidades da Nação, responsáveis da administração pública e outros notáveis.
Ao que conseguimos apurar, um dos objectivos desta iniciativa foi a escolha do Orégão Maior da organização, cargo disputado por três candidatos cuja identidade não foi revelada. No final, teve lugar uma refeição ritual, cujo menu era constituído principalmente por pratinhos de pipis, iscas com elas e caracóis.
Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
A morcela viajante

Uma morcela de arroz decidiu ir correr mundo. Andou, andou, até que chegou à beira do oceano. Como não lhe apeteceu voltar para trás, deitou-se à água e pôs-se a navegar pelo mar dentro. Pouco depois, uma gaivota que andava à pesca deu com a morcela vogando nas ondas e pensou logo que tinha ali um belo almoço. Abriu o bico e mergulhou das alturas em direcção à água. A morcela viu as manobras da gaivota, mas não perdeu o sangue frio. Quando o passaroco estava quase a filá-la, a morcela desviou-se com um golpe de rins. A gaivota bateu de chapa na água e perdeu os sentidos. Um safio que ia a passar admirou-se da coragem da morcela e pediu-a logo, logo, em casamento. Mas a morcela não aceitou. Agradeceu polidamente, retorquindo:
- Obrigada, meu bom amigo, mas não. Acredito que tenhas boas intenções. Mas eu sou uma morcela emancipada e não tenho nos meus projectos mudar fraldas borradas e apaparicar calaceiros. O meu destino é correr mundo. E é o que vou fazer.
E foi.
Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
A vingança do guardanapo

Um guardanapo alvo e engomado foi admitido como agente da Guarda. O comandante do posto, um esfregão grosseiro e insolente, achava que o guardanapo era demasiado fino para o exercício daquelas funções e estava sempre a implicar com ele.
- Olhe lá, você não será antes um guarda-nabo? Isto aqui é para gajos de barba rija. E quando as coisas não vão a bem, vão mesmo à bruta. Como é que você, um engomadinho do caraças, vai fazer valer a sua autoridade, se nem pêlo tem na venta, hã?
O pobre guardanapo ficava humilhadíssimo com estes comentários boçais, mas engolia em seco e permanecia em silêncio. É que ele, quando se enervava, gaguejava descontroladamente. E imaginava o vexame que passaria se descobrissem nele aquilo que seria considerado como mais uma fraqueza.
Foi ouvindo, foi engolindo, foi enchendo, mas aguentava-se estoicamente, fingindo que fazia orelhas moucas às provocações do sargento esfregão… embora, por dentro, ficasse a ferver.
Numa tarde de pouco movimento - estava o posto cheio de agentes - ao ouvir mais uma série de ordinarices do comandante, não aguentou mais e rebentou.
- Vá-vá-á lim-lim-limpar la-latrinas, seu-seu la-lateiro.
Atirou o bivaque para cima do balcão de atendimento e saiu porta fora. O resto da corporação ria perdidamente.
- Ó pá! O gajo não é só engomadinho, também é gago - dizia um escovilhão lambe-botas.
- Pois. É um engo-gugu-mamadinho - respondeu outro.
- Eu é que tinha razão. É um verdadeiro guarda-nabo - rematou o comandante.
Mas cá se fazem, cá se pagam! Quando o esfregão chegou a casa, ao fim do dia, ia tendo um chilique. A mulher, uma bela toalha de bilros, tinha feito as malas e fugira para o Brasil com o guardanapo.
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